setembro 9, 2015

A PERSONAGEM MATERNA “MARIAGRAZIA” NO ROMANCE “GLI INDIFFERENTI” DE ALBERTO MORAVIA

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Andréa Cabral de Souza GOMES[1]

 

Neste artigo, será discutida a representação literária da figura materna e a sua importância como figura central da família, observando a desconstrução da mesma na obra do escritor italiano Alberto Moravia.

O escritor romano Alberto Pincherle nasceu em 1907, ficou conhecido como Moravia e lançou o seu primeiro romance em 1929. Esta obra, intitulada Gli Indifferenti, foi considerada por muitos críticos italianos como sendo a precursora do movimento neorealista, tendo sido tomada por modelo para as narrativas das décadas de 1940 e 1950. A partir dessa primeira narrativa, o escritor romano teve uma grande atuação em diversos campos artísticos, como a literatura, o cinema e o teatro.

Pode-se dizer que o romance Gli Indifferenti traz uma análise moral que representa a sociedade burguesa do fascismo italiano. Esta obra é formada por um grupo de personagens provenientes do mundo burguês, que se recusa a reconhecer as aparências nas quais vivem, em uma atmosfera de contraste entre si, não podendo ser honestos com eles mesmos.

Sobre estes personagens do romance moraviano, o critico literário Edoardo Sanguinetti declara:

[…]Il personaggio di Moravia non è più il personaggio tipico del tradizionale romanzo borghese, frutto di una proiezione ideologica univoca e compatta, non è più un eroe in cui si configurino, tipicamente, valori positivi o negativi nettamente determinati. La tensione eroica […] crolla […] per dissolversi […] in una ambigua indifferenza etica.[2]

Para o crítico Cesare Segre (2004, p.28), “Moravia usa un linguaggio quotidiano con molti dialoghi, dedica un’attenzione totale ad ambienti e oggetti, è solo preso dal suo tema[3]. O tema usado pelo literato foi o da família.

O autor descrevia a sociedade burguesa dos anos do fascismo italiano, relatando o fracasso familiar, por meio de uma mãe em estado de alienação e da não comunicação entre os personagens, a preocupação de todos os personagens com a manutenção do status social e, ainda, a indiferença do sentimento materno.

Tal descrição despertou a precaução dos líderes fascistas, pois desmistificava a família burguesa italiana, expondo minuciosamente o falso moralismo que existia do regime ditatorial fascista que veiculava uma imagem positiva da família.

Em uma entrevista ao jornalista Elkann (2000, p.276), o escritor romano explica o mote da escolha pelo tema da família, informando que “il nucleo familiare è un microcosmo in cui, come si dice, si specchia il macrocosmo. Cioè nel quale tutto ciò che è particolare e privato è costretto dal carattere dell’istituzione familiare a convivere con tutto ciò che è sociale e pubblico[4].

Na literatura, de forma geral, as representações das personagens femininas/maternas e, por conseguinte, da família têm a sua composição embasada em modelos resultantes de processos históricos e culturais desde a época de Platão.

A família é um fator preponderante para a congregação do individuo na sociedade. Não é por acaso que o fascismo italiano tem na família, uma das células fundamentais para a sociedade daquela época, centradas na figura da mãe. Por este motivo, é a mãe o núcleo desta célula e a sua ausência “embaraça” a unidade familiar.

Nesse sentido, Platão, na obra A República, é o precursor para a identificação das características dos arquétipos mulher/mãe na sociedade helênica, pré-determinando o papel dela. Assim, ele construiu a noção e a fundamentou no entendimento da mulher como o elemento centralizador da família. Essa concepção perdurou e perdura, nas sociedades, ao longo da história.

A construção platônica de idealização da mulher e da figura materna atravessou o tempo, tendo sido repetida na literatura e na sociedade por estudiosos e pensadores. Nessa repetição, foram sendo reafirmadas as posições preconceituosas em relação ao feminino, tendo sido observado em A República, a mulher como um objeto ativo com finalidade de reprodução dentro de um determinado período de tempo, e sido concebido ainda como um ser humano menor, quer moral, quer intelectualmente.

Assim, pode-se observar que desde os tempos de Platão, o éthos da polis grega caracterizava a mulher com a função de procriar e de cuidar da prole, da casa e do marido. Isto é evidente no seguinte trecho de Platão (2012, p.152): “As mulheres todas serão comuns a todos esses homens e nenhuma coabitará, em particular, com nenhum deles; e por sua vez, os filhos serão comuns e nem os pais saberão quem são os seus próprios filhos, nem os filhos, os pais”.

O papel da mulher e do homem na sociedade permaneceu bem definido desde os primórdios da historia. À mulher cabe a educação dos filhos e o bem- estar da família, já aos homens compete o sustento, devendo ser o provedor da família e, muitas vezes, da comunidade em que vive, tendo de assumir o dever de “chefe de família”.

Esse papel do masculino manifesta-se na sociedade por meio do patriarcado e sublinha a submissão da mulher pelo homem. Tais valores éticos cristãos tinham a intenção de manter as mulheres em seu papel definido somente no âmbito familiar, ou seja, na esfera dos afazeres domésticos. Por isto, a dominação de homens sobre as mulheres configura-se como uma questão social, cultural e social, conforme é apontado por Bourdieu (2011, p.16).

Desta maneira, nessas sociedades não havia dúvidas sobre a função das mulheres onde viviam, já pré-determinada desde o nascimento. Assim, o objetivo de vida era o matrimônio e a continuidade da família por procriação. As que não fossem capazes de procriar eram “simplesmente” abandonadas pelo marido e rejeitadas pela sociedade.

Também a respeito desse assunto, Bourdieu (2011, p.105) afirma que:

[…] teríamos que levar em conta o papel do Estado, que veio ratificar e reforçar as prescrições e as proscrições do patriarcado privado com as duas de um patriarcado público, inscrito em todas as instituições encarregadas de gerir e regulamentar a existência quotidiana da unidade doméstica.

Ao longo dos séculos, a maternidade fora indicada por vários autores como a função principal da mulher. Ela era o núcleo da célula familiar. Sendo assim, a função de ser mãe representava a realização pessoal, a plenitude e a aquisição de prestígio na sociedade. Essa descrição está nos textos clássicos desde os tempos platônicos.

Na cultura italiana, a “mamma” foi consolidada como uma figura imagética que se traduz na luta pela família e na proteção da prole, sem perder a ternura. Esta figura imaginária chegou até os tempos atuais por intermédio do teatro, da literatura e do cinema.

Assim, a teoria do patriarcado concretizou-se na sociedade a partir do cristianismo e do catolicismo, reforçando a função procriadora da mulher. Esta teoria atravessou muitos séculos, tendo sido preconizada pela Igreja, foi também utilizada por estados autoritários, como no caso específico da Itália, pelo regime ditatorial fascista de Benito Mussolini.

Desta maneira, o ditador fundamentou as suas convicções na predominância do homem em relação à mulher. Segundo Perrot (2012, p.72), nesses estados totalitários, como foi na Itália, havia uma política demográfica natalista, favorável às famílias numerosas e às mulheres que atuassem no espaço privado.

Um dos conceitos enraizados pela ideologia patriarcal fascista era a educação familiar transmitida por meio das escolas criadas por Benito Mussolini com os cursos para prendas do lar e, especialmente, para a educação dos filhos e a maternidade. As mulheres teriam uma única preocupação: a finalidade de procriar para formar uma nação numerosa.

O regime fascista de Benito Mussolini necessitava da colaboração das mulheres para a criação de uma Itália fascista, portanto utilizou de diversos meios para aumentar a taxa de natalidade: instituiu no âmbito da reforma social a criação da ONMI (Opera Nazionale per la maternità ed Infanzia[5]), a isenção do pagamento do imposto para as famílias com pelo menos dez crianças, um prêmio em dinheiro para a mãe mais fecundante – todos esses benefícios  com o objetivo de ajudar a mãe e sua prole.

Essas noções de família e de formação do indivíduo são utilizadas pela ditadura de Mussolini, que por meio de propaganda resgatou a memória de glória da identidade italiana em que relembrava a grandeza do Império Romano.

Assim, o feminino postulado pelo Fascismo deveria obrigatoriamente abandonar os valores da sociedade europeia do século XX e aceitar a ideologia do regime fascista cujo maior objetivo era estabelecer os papeis precisos dentro da família e da sociedade civil italiana.

O tema do papel da mulher na sociedade, segundo Bourdieu, é determinado pela dicotomia cultura e natureza. A natureza é que define o ser masculino ou feminino, desde o nascimento à vida em sociedade; do homem, a força/poder, e, da mulher, a fragilidade/maternidade. O homem age na esfera pública e a mulher, no privado.

Estas questões, no romance Gli Indifferenti, não estão presentes, uma vez que a personagem Mariagrazia rompe o modelo da mãe ideal, postulado pelos escritos platônicos, que chegaram até o século XX.

Esta personagem feminina moraviana subverteu os modelos da sociedade patriarcal e do simbolismo da figura materna, não constituindo, dessa forma, a célula da sociedade – a família.

No romance Gli Indifferenti, o tema principal é a alienação do homem, o afastamento da sociedade e da fragilidade dos relacionamentos. Esta fragilidade está presente na relação maternal entre Mariagrazia e seus filhos. Nesse romance, há cinco personagens: a mãe Mariagrazia, os filhos Michele e Carla, o amante da matriarca, um empresário chamado Leo, e Lisa, a amiga de Mariagrazia. As relações entre os personagens são reveladas desde as primeiras páginas do romance e o tema principal Gli Indifferenti, é a relação de indiferença entre eles. Esta indiferença se transforma em uma aceitação passiva da realidade da vida hipócrita e uma total falta de comunicação.

Nesse romance, é delineada a desintegração de uma família da alta burguesia, a qual é indiferente aos valores morais, visto que há falsidade nos comportamentos e uma incapacidade de realizar escolhas.

O romance é ambientado em 1929, ano da ditadura fascista. A história se passa principalmente na luxuosa mansão de Mariagrazia. A família Ardengo é uma família aristocrática falida com uma grave crise econômica e será forçada a entregar a casa para o amante de sua mãe, Leo Merumeci.

É interessante notar que esses cincos personagens, no decorrer da história, apresentam o seu olhar, ou seja, as suas reflexões, focadas sobre os fatos narrados, sem, no entanto, assumirem uma atitude que possibilite uma mudança de comportamento deles na narrativa. As atitudes desses personagens retornam ao mesmo ponto de partida, sem que nada tenha sido resolvido.

A personagem materna busca a qualquer preço defender a sua posição social, uma vez que é representante da velha aristocracia que vive em um mundo de luxo apesar de a sua realidade econômica ser precária.

A sua maior preocupação é manter as aparências frequentando os mesmo ambientes de antes de sua falência, por isso, não percebe as investidas de seu amante em relação à sua filha. Mariagrazia é uma mulher de meia idade, que se importa apenas com a própria beleza, em manter o status social e com o seu amante. Existe uma relação de incomunicabilidade com os filhos e isso gera sentimentos de desvalorização da figura materna.

Estes sentimentos são expressos pelas personagens Michele e Carla em relação à Mariagrazia, por quem os filhos não nutrem nenhum amor, respeito ou menor demonstração de afeto, o que conduz a uma relação desastrosa entre mãe e filhos.

A matriarca da família não é descrita fisicamente, mas somente a maneira de pentear-se e maquiar-se, sendo apresentada como tendo um comportamento inseguro e indeciso. Além disto, a sua aparência, descrita por meio das roupas de cores vivas, reflete uma máscara estúpida e patética. A personagem é uma pessoa insegura e ciumenta, como percebe-se no trecho[6] “Mamma è gelosa di te” disse guardandolo; “per questo ci fa a tutti la vita impossibile.”[7]

Mesmo sendo um símbolo de decadência, a figura materna dessa obra moraviana está preocupada com as aparências. Por este motivo, não enxerga as investidas de seu amante em sua filha Carla. Os filhos de Mariagrazia têm repulsa pelo papel que a matriarca tenta representar na sociedade de mãe cuidadora e zelosa com os filhos.

A máscara citada acima, utilizada pela matriarca da família Ardengo, é uma representação da personagem na sociedade. Ela se disfarça e não mostra quem é verdadeiramente para as pessoas que estão ao seu redor.

A máscara e a face foram inspirações do escritor e dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936), noções que vieram do teatro del grotesco. Nesse teatro, ele utiliza recursos épicos narrativos para explicar a máscara que reflete o externo, evidenciando que o homem é escravo dos preconceitos e do condicionamento social e familiar, sendo que a face representa o indivíduo. Nesse sentido, a sociedade exige a certeza e tenta aprisionar o homem em seus conceitos fictícios e a aparência é modelada pelo eu dos outros.

Outra personagem, Lisa, também que vive de aparência na história moraviana, mesmo estando falida após ter tido suas joias levadas pelo seu marido e também ter tido um relacionamento com Leo Merumeci, apaixona-se por Michelle, sendo incapaz de ser correspondida pelo jovem, e estando por isso, desiludida. A personagem mantém uma relação de ciúme e inveja em relação aos Ardengo e a Merumeci.

Por meio dos discursos de Michele e Carla, podemos analisar a relação entre a mãe e os seus filhos. O filho da personagem Mariagrazia, Michele, faz reflexões em que se percebe a falsidade em que estão mergulhadas a sua vida e sua família, sendo um personagem indiferente a tudo, mesmo sabendo que tinha perdido a sua casa para Leo. “Perchè sorrido?” egli ripetè. Perchè tutto questo mi è indifferente… e anzi quasi mi fa piacere.”[8] Embora o odeie tem admiração pela riqueza do amante de sua mãe.

Michele é a personagem principal do romance. É interessante destacar o aspecto psicológico dele na narrativa, pois se apresenta sempre de mau humor e indiferente à vida. Dentre os Ardengos, é o único capaz de perceber a ruína moral e financeira da família, além disso, é o único que percebe a falta de amor maternal. No entanto, é incapaz de tomar qualquer atitude; apenas consegue refletir sobre a situação em que está inserido. A sua relação com a figura materna é de desprezo. Na citação a seguir percebe-se o pensamento de Michele sobre a própria mãe.

Per un instante, senza parlare,egli la guardò: “daresti un dispiacere a tua madre,” si ripeteva e la frase gli pareva a un tempo ridicola e profonda. “Ecco” egli pensò con un disgusto superficiale; “si tratta di Leo […] del suo amante […] eppure ella non esita a tirare in ballo la sua qualità di madre. ” Ma la frase era quella: “daresti un dispiacere a tua madre”, ripugnante e inconfutabile, distolse gli occhi di quella faccia sentimentale; dimenticò ad un tratto tutti i suoi propositi di sincerità e di collera: “E in fin dei conti” penso “tutto mi è indifferente”. […](Moravia 2001, p.27)[9]

O relacionamento materno no decorrer do romance se constrói pelo olhar dos filhos e, sobretudo, da amiga Lisa:

Lisa stette per un instante ad ascoltare sopra pensiero quell’eco, poi guardò Mariagrazia; si meravigliò; era mai possibile che qualla faccia adirata e gelosa riflettesse… l’amor materno? E che capisce d’amor materno era quello che faceva incollerire sino a quel punto una donna che non si era mai mostrata eccessivamente tenera coi i figli suoi ? O non era piuttosto gelosia carnale, gelosia d’amante… Improvvisamente capì: il primo sentimento fu di sollievo; poi guardò la madre e il dubbio le tornò. (Moravia 2001, p.185)[10]

Outra personagem é Carla, bonita e sensual. Ela está cansada da vida e das mesmas situações, pobre e vítima de um estado de prostração. Ela é obcecada pela necessidade de mudar a sua vida e tenta fazê-lo através de seu corpo, da sua sensualidade. Por isso, decide ir se relacionar com Leo, o amante de sua mãe, uma vez que percebe que é a única saída para resolver a sua existência monótona.

A filha da matriarca apresenta a sua vida sem perspectiva e acaba por reproduzir o mesmo papel da mãe em busca de manter a posição social. A jovem passa a ver no amante da mãe a única possibilidade de uma vida melhor e acaba cedendo às investidas de Leo Merumeci. Observa-se, no trecho abaixo, também, a competição entre mãe e filha em relação ao amante:

“Non è strano?” si diceva; “domani mi darò a Leo e così dovrebbe incominciare una nuova vita… e appunto domani è il giorno in cui sono nata” si ricordò di sua madre; “ed è col tuo uomo” penso “ed è col tuo uomo,  mamma che andrò”. Anche questa ignobile coincidenza, questa sua rivalità con la madre le piaceva; tutto doveva essere impuro,  sudicio basso,  non doveva esserci né amoré né simpatia, ma solamente un senso cupo di rovina. (Moravia 2001, p.37)[11]

A personagem Carla, como a matriarca da família Ardengo, sofre a dominação masculina do amante da sua mãe. É a dominação financeira que leva as duas personagens ao sexo; desta forma, ambas conseguem manter a posição social em que sempre estiveram. Assim, as duas se tornam o locus do exercício do poder masculino, no caso específico de Leo Merumeci.

A dominação masculina exercida sobre as personagens pode ser confirmada por Bourdieu (2011, p.31):

Se a relação sexual se mostra como uma relação social de dominação, é porque ela está construída através do princípio de divisão fundamental entre o masculino, ativo, e o feminino, passivo, e porque este princípio cria, organiza, expressa e dirige o desejo – o desejo masculino como desejo de posse, como subordinação erotizada, ou mesmo, em última instância, como reconhecimento erotizado da dominação.

A estrutura familiar representada no romance moraviano apresenta um perfil que rompe com o moralismo social difundido por Mussolini, propagado no fascismo. Moravia traz em sua obra uma classe média dominada por ideais materialistas, como o sexo e o dinheiro, livres de qualquer valor ideal.

A sociedade na época de Gli Indifferenti é descrita pelo escritor romano em uma entrevista ao jornalista Alain Elkann (2000, p.32), no trecho que segue:

l’unica cosa che si vede veramente in quel romanzo; una società ambiziosa, ignorante e bovaristica, ancora legata ai pregiudizi della borghesia di provincia. Era la piccola borghesia di un paese povero, poverissimo, che da secoli moriva di fame”.[12]

No romance Gli Indifferenti, as personagens não possuem uma descrição física; tem-se uma análise das personagens de acordo com os monólogos interiores, por meio dos quais são percebidos os costumes e os interesses de cada um.

Desta forma, a matriarca da familia é descrita não pela sua aparência fisica, mas sim pelo seu carácter. Como vemos em Moravia (2001, p.32): “[…] Con suo passo malsicuro; e nell’ ombra la faccia immobile dai tratti indecisi e dai colori vivaci pareva una maschera stupida e patetica[13] e “[…] di quella faccia molle e dipinta una maschera pietrificata in un’espressione di patetico smarrimento […]”.[14]

Mariagrazia representa um aspecto da decadência burguesa que está gradualmente perdendo todos os laços com a realidade autêntica da vida. O seu papel é o de alguém que percebe a deriva, afundando, mas não menciona qualquer reação para evitar a falência.

Preocupada com a situação financeira, não percebe o mundo ao seu redor, a raiva e o nojo que causa em seus filhos com suas cenas de ciúme, não percebe as intenções ambíguas de Leo com a sua filha, nem a perda moral de seu filho Michele.

O processo de desconstrução da figura materna é constante na obra, já que a personagem é presa a tabus sociais e condicionada à imposição de bons costumes da época, sendo que, ao mesmo tempo, tinha um amante, que representava para ela a saída para os problemas financeiros da própria família.

A personagem materna sabe que a hipoteca da sua casa está se esgotando e não há a possibilidade de ela e de seus filhos se acostumarem com um estilo de vida mais modesto. Para a matriarca da família Ardengo, é inconcebível viver na pobreza, por isso depende de sua relação com Leo, na esperança de esse relacionamento poder salvá-la de seu futuro incerto.

Mariagrazia é construída pelo seu discurso e por intermédio dele; somada aos seus trejeitos pode-se analisar os traços que constroem o caráter maternal. A figura materna na obra moraviana não reconhece o seu declínio físico de mulher madura e também o social, vivendo apenas a falsidade da sociedade com suas conveniências sociais.

Outro traço característico dessa personagem é a valorização da riqueza, sobretudo, na figura de seu amante Leo, já que ele a “mantém” em uma sua situação financeira estruturada. Isso a faz assumir um posicionamento a favor de seu amante e contra os filhos.

non si può mica dir sempre la verità in faccia alla gente… le convenzioni sociali obbligano spesso a fare tutto l’opposto di quel che si vorrebbe… se no chi sa dove si andrebbe a finire. (Moravia 2001, p.55)[15]

O romance do escritor Moravia caracteriza uma forma de violência dominadora e opressora, isto é, trata-se de uma violência “psicológica”, a qual Mariagrazia exerce sobre os filhos.

[…] daresti un dispiacere a tua madre, si ripeteva […]

No, non scusarti, osservò a questo punto Lisa che aveva seguito la scena con la più grande attenzione, tutti la guardarano: Ti ringrazio tanto, Lisa” continuò la madre offesa e teatrale; proprio tanto di alzarmi contro mio figlio. […] Ho fatto quel che avete voluto, disse bruscamente e ora permette che vada a dormire perchè sono stanco. Girò su sè stesso come una marionetta e senza salutare nessuno uscì nel corridoio. (Moravia 2001, p.27-28)[16]

Sobre esse aspecto, Bourdieu (2007, p.7) esclarece que

Chamo de violência simbólica, violência suave, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias […] simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento, ou, em última instância, do sentimento.

Mariagrazia exerce a “violência simbólica” sobre Carla e Michele. A situação é percebida pelo sentimento de rejeição dos filhos em relação à própria mãe e também por Lisa.

Michele era di cattivo umore: gli avvenimenti della sera avanti gli avevano lasciato un malcontento ipocondriaco; capiva che bisognava una buona volta vincere la propria indifferenza e agire; senza alcun dubbio l’azione gli veniva suggerita da una logica estranea alla sincerità; amor filiale, odio contro l’ amante di sua madre, affetto familiare, tutti questi erano sentimenti che egli non conosceva…ma che importava? (Moravia 1979, p.190)[17]

A matriarca é a representação contraria aos atributos da mãe estabelecida pela estrutura família tradicional, assumindo um papel decididamente contrário do fascismo de Benito Mussolini.

Assim, pode-se afirmar, como visto anteriormente, que o caráter de Mariagrazia não pode ser interpretado dentro de um modelo tradicional de família patriarcal, nem como um representante do padrão maternal da propaganda fascista italiana da primeira metade do século XX.  Nesta narrativa moraviana ocorre a desvalorização do papel da imagem materna.

Para concluir, o romance Gli Indifferenti indica a perda dos ideais de família tradicional. O ponto de partida é a crise dos valores da sociedade no século XX. Os cinco personagens do romance vivem sem sentimentos e imersos em uma hipocrisia. Carla e Michele são as almas do romance que demonstram em uma primeira tentativa de revolta contra a situação em que viviam. Mas, a sociedade corrupta acaba corrompendo os filhos da matriarca e o caráter de Mariagrazia escapa ao arquétipo da mãe, não sendo um personagem típico dos romances burgueses tradicionais. Ela age de acordo com seus sentimentos sugestionáveis​​.

Portanto, o escritor romano Alberto Moravia descreve em seu romance Gli Indifferenti como os personagens buscam o seu sucesso, ou seja, dinheiro, status social, revelando o que importa. Para os personagens, não é a maneira como conquistar e sim alcançar. Tudo nessa sociedade é cômico e falso, pois não há sinceridade e autenticidade nos sentimentos.

 

Referências:

ASOR ROSA, Alberto. Storia della Letteratura Italiana. Firenze: La Nuova Italia, 1985.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

CARDOSO, Marinês Lima. O estudo das personagens da obra Gli Indifferenti de Alberto Moravia. Faculdade de Letras. Universidade Federal do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 2005 p.64-84.

CERNIGLIARO, Maria Angela. L’Italia è cultura. Roma: Edilingua, 2010.

ELKANN, Alain. Vita di Moravia. Milano: Bompiani, 2000.

MORAVIA, Alberto. Gli Indifferenti. Milano: Bompiani, 1929

._____________. Os Indiferentes. Tradução de Álvaro de Almeida. Rio de Janeiro: Edições Livros do Brasil, 1993.

PERROT, Michelle. História das Mulheres no século XX. Tradução de Claudia Gonçalves e Egito Gonçalves. Porto: Edições Afrontamento, São Paulo: Ebradil, 1991. 4 º vol.

____________. Minha história das Mulheres. São Paulo: Contexto, Tradução de Angela M. S. Correa – 2ª edição. 2012.

PIAZZA, Ada Ruata & GLIOZZI, Giuliano. Tuttostoria. Corso di storia e di educazione civica per la scuola media. Torino: Petrini,1989.

PLATÃO. A República. Tradução Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2012.

 

Como citar este texto:

GOMES, A. C. S. A personagem materna Mariagrazia no romance Gli Indifferenti de Alberto Moravia. In: BRUNELLO, Yuri; SILVA, Rafael; MARCI, Giuseppe (orgs.). Novas perspectivas nos estudos de Italianística. Fortaleza: Substânsia, 2015.

[1] Doutoranda em Letras Neolatinas/UFRJ.

[2] Introdução de Edoardo Sanguinetti para Gli Indifferenti. (Moravia 2001, p. XVII). “[…] o personagem de Moravia não é mais o personagem típico do romance tradicional burguês, fruto de uma projeção ideológica unívoca e compacta, ele não é mais um herói em que configuram os valores positivos ou negativos claramente determinados. A tensão heróica, que embora exija ser caracterizada, aqui cede às raízes do conflito, para dissolver-se espontaneamente em uma ambígua indiferença ética”. (Tradução nossa.)

[3] “Moravia usa uma linguagem do cotidiano com muitos diálogos e com uma dedicação ao ambiente e aos objetos, absorvido no seu tema”. (Tradução nossa)

[4] “O núcleo familiar é um microcosmo em que se espelha o macrocosmo. Isto é, tudo o que é particular e privado é característico da instituição familiar a conviver com tudo o que é social e público”. (Tradução nossa)

[5] Obra Nacional para a Maternidade e a Infância.

[6]  Moravia (1993, p.10)

[7] “A mamãe tem ciúmes de você” disse Carla, olhando para ele “Por isso nos torna a vida impossível”.

[8] Porque sorrio?-repetiu ele-Porque tudo isto me é indiferente…e até quase me dá prazer.(Ibid, p.21)

[9] Durante um instante, sem falar, ele olhou-a. “Darias um desgosto a tua mãe”, repetia ele para consigo, e a frase parecia-lhe ao mesmo tempo ridícula e profunda. “Pois é” pensou, com uma repugnância superficial, “trata-se de Leo… do seu amante… e, contudo, ela não hesita em meter na dança a sua qualidade de mãe” Mas a frase era aquela: “darias um desgosto a tua mãe”, repugnante e irrefutável; desviou os olhos daquela cara sentimental, esqueceu de repente todos os seus propósitos de sinceridade e de cólera . “E no fim das contas”, pensou “tudo me é indiferente… (Moravia 1993, p.32)

10 Lisa ficou um instante a ouvir, meditativa, aquele eco, e fitou depois Mariagrazia; admirou-se; seria possível que aquele rosto encolerizado e ciumento refletisse… o amor materno? E que espécie de amor era aquele que fazia encolerizar a tal ponto uma mulher que nunca se mostrara excessivamente terna com os filhos?Ou não seria antes um ciúme carnal, ciúme de amante? … De repente, compreendeu: o primeiro sentimento foi de alívio; depois fitou a mãe e a dúvida voltou-lhe (Moravia 1993, p.175)

[11] “Amanhã, dar-me-ei ao Leo e devia começar assim uma vida nova… e é exatamente amanhã o dia em que nasci” Lembrou-se da mãe; “e é com o teu homem”, pensou, “com o teu homem, mamãe, que irei”. Até aquela ignóbil coincidência, aquela sua rivalidade com a mãe lhe agradava; devia ser tudo impuro, sujo, baixo, não devia haver nem amor nem simpatia, mas somente um sentimento escuro de ruína (Moravia 1993, p.43)

[12] A única coisa que se vê verdadeiramente neste romance é uma sociedade ambiciosa, ignorante e bovarística, ainda ligada aos preconceitos de uma burguesia provinciana. Era uma burguesia pobre, paupérrima que há séculos morria de fome. (Grifo nosso)

[13] […] no seu passo pouco firme, e, na sombra, a cara imóvel, de traços indecisos e de cores vivas, parecia uma máscara estúpida e patética. (Moravia 1993, p.37)

[14][…] daquela cara mole e pintada uma máscara patrificada numa expressão de desanimo patético […] (Ibid, p.37)

[15] Não se pode de maneira nenhuma dizer a verdade na cara das pessoas… as conveniências sociais obrigam muitas vezes a fazer o contrário do que se desejaria… se não fosse assim quem sabe onde iríamos acabar. (Moravia 1993, p.60)

[16] […]daria um desprazer a tua mãe, se repetia[…]

– Não, não te desculpe – observou nesta ocasião Lisa que tinha observado a cena com a maior atenção, todos a olharam. – Agradeço-te muito, Lisa – interveio a mãe, ofendida e  teatral – mesmo muito, por incitares o meu filho contra mim. […].   Eu fiz o que você queria, disse bruscamaente e agora permite que eu vá dormir porque estou cansado. Girou sobre si mesmo como fantoche e sem cumprimentar ninguém, foi para o corredor. (Ibid, p.27)

[17]Michele estava de mau humor: os acontecimentos da noite anterior haviam-lhe deixado um descontentamento hipocondríaco; compreendia que era preciso vencer, de uma vez por todas, a própria indiferença e agir, a ação era lhe sem dúvida sugerida por uma lógica estranha à sinceridade; amor filial, ódio contra o amante de sua mãe, afeto familiar, tudo isto eram sentimentos que não conhecia… mas que importava. (Moravia1993, p.180)