setembro 1, 2015

UMA NOVA FRONTEIRA DE ESTUDO NA FONOLOGIA ITALIANA: A PROSÓDIA, EM PERSPECTIVA SOCIOLINGUÍSTICA E HISTÓRICA

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Marco Barone[1]

 

1) Dialetos e variedades: uma introdução sociolinguística.

 

No panorama sociolinguístico italiano, ao lado do estudo dos dialetos, na fonética e fonologia, existe um segundo nível de diferenciação diatópica, o estudo das variedades locais do italiano oral, comumente chamadas de “parlate”, fortemente influenciadas pelos próprios dialetos, e cuja análise avança paralelamente à deles. Ao longo do tempo, a literatura variacionista do italiano demorou-se sobre o estudo dos fones e fonemas, como unidades adjacentes e consecutivas em sequência temporal linear, e a sua associação com partes de significado, ou seja sobre o dito nível “segmental” da variação fonética e fonológica, seja de um ponto de vista puramente sincrônico e descritivo, como na análise da mudança e do contato, até determinar uma subdivisão diatópica em macroáreas delimitadas por isoglossas, que correspondem principalmente às macroáreas que classificam os dialetos com base suprarregional.

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Fig 1a,b. As áreas dialetais e as duas isoglossas segmentais principais

 

Para termos uma medida da distinção entre dialetos e variedades do italiano e entre variedades do italiano e italiano padrão, consideremos o exemplo seguinte, criado propositalmente para mostrar uma ampla gama de diferenças: o trio de transcrições fonéticas da frase italiana “Sarebbe una buona cosa se non ci andassi per niente al suo posto, in chiesa con lui. Perché non scendi un po’ prima, come sempre?” com pronúncia italiana padrão, local e da sua tradução para o dialeto local.

ITALIANO PADRÃO:

[sa’rɛb:e una ‘bwɔna ‘kɔza se ‘non ʧi an’das:i per ‘njɛnte al ‘suo ‘posto in ‘kjɛza kon ‘lui̯ per’ke ‘non ‘ʃendi um ‘pɔ ‘p:rima ‘kome ‘sɛmpre]

ITALIANO LOCAL (PESCARA, ITALIA ORIENTAL)

[sa’reb:e una ‘b:wɔna ‘kɔsa se ‘n:on ʧan’das:i pe ‘n:jɛnte ‘al ‘suo ‘pɔsto in ‘kjesa ko ‘l:ui̯ pe’k:e no ‘ʃɛndi um ‘pɔ ‘prima ‘kome ‘s:ɛmpre]

DIALETO LOCAL (PESCARA)

[‘fus:ǝ na kɔsa ‘b:onǝ si nʤi ‘jis:ǝ pi ‘n:ind a lu ‘puʃta ‘su la k:jesǝ ngi es:ǝ pik:e niŋ gilǝ nuk:unuʧ:ǝ n:anʣǝ ɲa fi simbrǝ]

O exemplo mostra uma diferença enorme, além do limite da inteligibilidade, entre dialeto e italiano local, e uma muito menos relevante entre italiano local e italiano “padrão”, isto é, obedecendo a norma da dicção. A transcrição fonética mostra a distinção entre alguns alofones, tais como [e] em italiano local no lugar de [ɛ] padrão ([‘kjesa], [sa’reb:e]) , e vice-versa ([‘ʃɛndi]), [ɔ] no lugar de [o] ([‘pɔsto]), [s] no lugar de [z] ([‘kjesa], [‘kɔsa]), os raddoppiamenti fonossintáticos, caracterizados pela consoante geminada, ou “dupla”, em início de frase ([‘n:on], [‘s:ɛmpre]) em italiano local que faltam em italiano padrão e vice-versa ([‘p:rima]), reduplicações iniciais de natureza diferente ([‘b:wɔna]). Em certos casos, até temos dialeto e italiano com a mesma pronúncia, onde a fala local se diferencia por hipercorreção (é o caso do fonema ɔ em [‘pɔsto]). Parece, portanto, à primeira vista, que os dialetos não deixaram um marco tão profundo frente à inexorável padronização desta variedade local de italiano. Há um elemento, porém, a respeito do qual a transcrição fonética não é capaz de providenciar informação nenhuma, que foge à norma e marca, sim, uma profunda semelhança entre as variedades locais e seus respectivos dialetos e cuja variação no espaço, por outro lado, nos dialetos como nas variedades, é bem mais fragmentada do que uma subdivisão geográfica mediante isoglossas possa reproduzir. Trata-se do aspecto prosódico, ou suprassegmental, da língua.

2) O acento e o nível suprassegmental: uma introdução técnica à prosódia.

Para entendermos a natureza deste nível linguístico, primeiro devemos analisar a noção de acento. O acento de palavra corresponde em italiano a certas propriedades privilegiadas de uma sílaba dentro de uma dada palavra. Tal sílaba, que será dita sílaba acentuada, ou tônica[2], poderá receber algum tipo de “destaque”, com respeito às demais, dado pela concorrência de três fatores: uma duração maior, uma maior intensidade, ou volume, e por fim, uma frequência melódica distinta. Na transcrição fonética, a sílaba que possui tal acento de palavra é precedida por um apóstrofo. As propriedades que nos permitem reconhecer qual é a sílaba tônica são, portanto: 1) é a mais duradoura, 2) é pronunciada em voz mais alta, mas sobretudo ela é a única sobre a qual a voz configura um movimento melódico especial, distinto das demais. No gráfico abaixo podemos observar os espectrogramas da pronúncia em isolamento das palavras italianas “nomino” e “nominò”.

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Fig. 2 A palavra “nomino” [‘nɔmino] e a palavra [nomi’nɔ]

O espectrograma é um gráfico que dá conta de numerosas propriedades da emissão vocal. O sinal acústico chega em forma de onda composta, que o espectrograma reparte como soma de ondas mais simples, cujas frequências nos permitem reconhecer as vogais e estão indicadas, no gráfico, pelo nível das listras horizontais cinza/pretas na margem baixa dos espectrogramas. A escuridão de sua cor, mais ou menos tendendo ao preto, representa o volume, ou intensidade, e a duração temporal é dada, obviamente, pela sua extensão horizontal. Enquanto as listras cinza/pretas representam as frequências de vibração das cavidades supralaringais, a altura da linha continua sobreposta ao diagrama representa a frequência de vibração da glote e é chamada frequência fundamental. A frequência fundamental é o objeto de estudo da entoação: sua altura é percebida como impressão melódica, ou seja, nossa impressão de que o falante esteja colocando em cima da sílaba uma dada nota musical, mais ou menos aguda, ou um movimento musical ascendente ou descendente. No exemplo referido, na figura à esquerda (“nòmino”) podemos notar como as listras horizontais são levemente mais escuras e alongadas, em correspondência à primeira sílaba, enquanto na figura da direita (“nominò”) elas serão levemente mais escuras e compridas em correspondência à terceira. Isso leva a concluir que a sílaba tônica é a primeira, no primeiro caso, e a última, no segundo, mas precisamos de um software como o utilizado, ou de um ouvido excelente para sentenciar isto. A diferença mais evidente entre os dois sinais acústicos, e a mais reconhecível por um ouvido qualquer, sem precisar de computadores, está claramente cifrada no andamento tão diferente das linhas de frequência: na figura da esquerda, a primeira sílaba, que é a tônica, recebe um movimento descendente, uma “queda” da nota musical da voz, enquanto nas outras sílabas a altura musical fica plana, achatada. Na figura da direita, pelo contrário, é a terceira sílaba que recebe o mesmo andamento musical “especial”, ou seja, uma queda.

Por que, então, não dizer que este movimento melódico especial, que nos faz reconhecer a sílaba tônica, é uma queda de altura tonal, definindo assim a sílaba tônica como “a primeira a partir da qual todas as seguintes carregam uma tonalidade menor”? Há pelo menos duas razões que não nos permitem concluir isto. Foram mostrados espectrogramas de palavras pronunciadas em isolamento. Mas as palavras em isolamento não são acontecimentos linguísticos reais. Temos que nos perguntar: o que acontece, na realidade, dentro da frase? E no discurso?

Como se vê no exemplo da longa frase transcrita foneticamente, toda palavra possui no máximo uma sílaba tônica, e algumas não têm. Dissemos anteriormente que a sílaba tônica é a única a receber um movimento melódico especial de “destaque”. Mas na prática pode acontecer que nem a única candidata o receba, e que uma palavra dotada de sílaba tônica seja pronunciada sem nenhum “movimento especial”. Tal movimento de “destaque” é indicado em prosódia com o nome de “proeminência” ou “acento frasal” e será descrito melhor na próxima seção. Por exemplo, voltando ao exemplo da frase transcrita foneticamente, é raro que todas as sílabas tônicas tenham de fato uma proeminência. Podemos normalmente pensar, na fala rápida, em pronunciar a frase deixando muitas palavras sem proeminência, palavras com função puramente gramatical mas também elementos lexicais como “chiesa” e “scendi”. Em segundo lugar, mesmo quando a proeminência está presente, nem sempre o movimento melódico especial que a identifica é uma queda da frequência: pelo contrário, isto depende da posição da palavra no interior da frase, da modalidade sintático-pragmática da frase, mas sobretudo, da língua ou da variedade linguística analisada. Se colocamos nossa palavra no final da frase, é muito provável que ela receba um acento. Nas declarativas simples, quase todas as variedades do italiano e muitas línguas românicas (mas não, por exemplo, o castelhano) exibem um comportamento da proeminência na última sílaba tônica da frase que é parecido com o da palavra em isolamento, ou seja, descendente. Se consideramos porém uma interrogativa polar, mas conhecida como pergunta “sim ou não”, observaremos que as coisas mudam:

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Fig. 3a,b Detalhe das palavras “nomino” e “nominò” dentro das frases interrogativas “Non lo nomino?” e “Non lo nominò?”

Como se vê pelo gráfico, nas respectivas sílabas tônicas notamos um primeiro breve movimento ascendente inicial, seguido por um movimento descendente. Observando a figura da esquerda, o nível se mantém constante sobre a sílaba pós-tônica e sobe no final da frase. Mas na figura da direita, onde a sílaba pós-tônica não está presente, a subida é iminente. Vemos então como, neste caso, o movimento especial que marca a última sílaba tônica é um duplo movimento ascendente-descendente. Será que é esta a definição de acento, mas só no caso das perguntas polares? Será que podemos afirmar que “sílaba tônica é 1) aquela a partir da qual a frequência desce, caso se trate de uma declarativa mas 2) aquela sobre a qual a frequência sobe e desce, no caso das interrogativas polares”? A resposta continua negativa: tal definição, além de complexa, é limitada a uma variedade específica (no caso, Pescara) de uma língua específica (italiano), como podemos observar nas figuras abaixo.

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Fig. 4a,b Interrogativa polar nas variedades do italiano de Nápoles (a) e Pisa (b)

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Fig 4c Interrogativa polar no português brasileiro, variedade de Recife

Diferentemente de Pescara, em Nápoles, sobre a sílaba tônica haverá um movimento ascendente, durante quase toda a duração da sílaba, e logo uma queda, apenas no final dela, que dura até o término da frase. Em Pisa, até encontramos, sobre a sílaba tônica, uma descida, seguida por uma subida, e logo uma descida no final da frase. No português brasileiro de Recife se observa um tom plano ou levemente descendente ao longo da última sílaba tônica com uma repente subida no final. Como definir, então, o acento de palavra? Será que teremos que optar por “Aquela sílaba que recebe um movimento descendente nas declarativas italianas, e um ascendente-descendente, nas interrogativas, se pronunciadas em Pescara, mas descendente-ascendente se for em Pisa?” Fica evidente que devemos aceitar que, por estranho que pareça, a única definição possível de acento de palavra passa por uma definição preliminar de acento de frase, ou proeminência prosódica. Uma sílaba tônica é simplesmente a que “recebe uma proeminência em certos contextos”, e uma definição mais exata de proeminência será dada na seção 3.

2) O panorama histórico-linguístico da Itália: uma introdução histórica

Diferentemente de muitos países que contam com uma unidade política solidificada há séculos, refletindo uma homogeneidade linguística igualmente forte, a Itália mostra uma impressionante variação sociolinguística, devido à sua história recente como país unificado. Na Idade Moderna, a península italiana foi dividida em vários estados, de diversas dimensões, os mais extensos sendo o Reino de Nápoles, incluindo o Sul inteiro, sob o domínio e a influência francesa e espanhola, e o Estado Pontifício, sede da Igreja Católica. A Itália setentrional e central, porém, além de poucos estados de tamanho intermediário, era pontilhada por uma miríade de pequenos estados e estados-cidade. Uma das mais importantes tentativas de unificação remonta ao 1847, quando os estados pertencentes aos Savoia foram unificados sob o Reino de Sardenha, que foi a origem da Monarquia italiana, em 1861.

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Fig. 5 A repartição política da Itália

A língua italiana nasceu, como língua escrita, como tentativa de, por parte de políticos, acadêmicos, escritores, personagens culturais de destaque e editores de textos escolares, criar uma versão padronizada a partir das línguas românicas (melhor conhecidas como “dialetos”), faladas por toda a península, já que a tentativa de transmitir o latim às camadas iliteradas da povoação havia falido. Quanto às regras e à forma escrita, o italiano era baseado no dialeto florentino, já dotado de um rico patrimônio escrito e conhecido pela imprensa desde o tempo de Dante Alighieri; em seguida, passou a incluir traços e peculiaridades de outras variedades dominantes, especialmente a romana.

Contudo, as regras de um padrão oral comum nunca haviam sido estabelecidas, até que as primeiras expressões de arte, o cinema e o teatro procuraram, por meio da dicção, criar uma norma nacional de pronúncia dos fonemas e das unidades fonológicas. Tal norma alcançou certo status oficial ao longo do tempo, e os dicionários acabaram convergindo para ela. Mas tal norma não incluía a prosódia, e até hoje não existe nunhuma forma de regulamentação ou acordo sobre o que deveriam ser traços rítmicos-entoacionais “padrão” ou corretos, nem, de fato, é pensável.

O italiano chegou nas escolas da Itália toda como língua escrita e, no momento de ser ensinado, a pronúncia dos professores locais junto a cada comunidade, refletiam traços próprios do respectivo dialeto local, sobretudo ao nível da entoação. Ninguém levou para as escolas da Itália a entoação florentina, apenas os livros. Assim se criaram entoações locais do italiano, moldadas no dialeto, em cada realidade geográfica individual.

Para reverter um pouco o estereótipo e a conotação negativa que a expressão “dialeto” subentende, observemos então que, enquanto os dialetos são línguas a todos os efeitos, dotados de uma oralidade e de uma entoação própria, o italiano padrão é um conceito sublinguístico incompleto, um modelo escrito e abstrato, a se preencher, doando-lhe uma oralidade e uma entoação. Foi com extrema naturalidade, portanto, que os povos transferiram traços do próprio dialeto a tal objeto sublinguístico, criando as variedades locais do italiano. Isto começou a mudar, mas muito de leve, com a chegada do rádio e da televisão, durante o século XX, mas ainda hoje qualquer entoação do italiano reflete principalmente a do dialeto local, seja esse ainda muito usado ou quase extinto.

Alguns traços suprassegmentais foram difundidos pelos anunciadores televisivos, provenientes principalmente de Roma e Milão, sedes das televisões, instruídos a seguir uma determinada norma segmental, ou toscanos, recrutados por sua natural “correção”. Ao nível da entoação, porém, eles estavam espalhando à nação inteira traços provenientes de suas realidades linguísticas de origem. Contudo, o estilo do anunciador televisivo é muito escasso, quanto a tipologias frasais, rico em declarativas simples, porém quase privado das modalidades mais diversamente conotadas, como interrogativas, imperativas, exortativas.

A cultura cinematográfica neorealista contribuiu para o conhecimento das entoações regionais, sobretudo através dos dialetos das cidades principais: os centrais, que são variedades do italiano, também a um nível segmental, como o florentino e o romanesco, e os mais distantes, como o genovês, os dialetos sicilianos, o napolitano, etc. Mas foi provavelmente graças às figuras dos cômicos e do “varietà”, um estilo televisivo mais espontâneo e interativo, mas que ao mesmo tempo tem que se conformar a um critério de inteligibilidade e a uma norma oral compartilhada, que adquiriram fama os chamados “sotaques” regionais, as variedades do italiano oral.

Na literatura específica, há uma certa unanimidade em reconhecer que a prosódia regional italiana nasceu do substrato dialetal: muitos linguistas usam a palavra “regional” para indicar todos os traços de procedência dialetal. Podemos citar Canepari: “os que eliminaram as características articulatórias marcadamente regional da sua pronúncia mantêm as estruturas entoacionais da sua fala, pois são as mais difícis de se modificar” (Canepari, 1979) ou Pellegrini: “A pronúncia do italiano regional desvela quase sempre o fundo dialetal que se insinua” (Pellegrini, 1960) ou De Mauro “A persistência da prosódia dialetal no uso regional do italiano abre, a um nível pré-científico, a possibilidade fácil e imediada de detectar a procedência regional de um falante”.

Se a dialetologia e a sociolinguística variacionista diatópica investiram muitas energias no nível fonético-fonológico segmental, certamente não podemos dizer que igual atenção tenha sido prestada à camada suprassegmental da fonologia, que, como já tentamos definir, dá conta não de “qual é” o material fônico pronunciado, de quais variantes alofónicas sejam preferidas em cada área, mas sim de “como” tais fonemas e tais variantes são pronunciados, da distribuição dos acentos e da natureza acústica dos mesmos, especialmente na variação de duração e de frequência musical dos movimentos que os compõem, em outras palavras, o estudo do que é comumente chamado de “melodia” de uma língua, ou dos ditos “sotaques” locais.

4) Estudos prosódicos: o sistema métrico autossegmental e o sistema ToBI

            A prosódia é baseada, em primeiro lugar, na noção de proeminência frasal, uma característica que atribuímos a cada sílaba que se distingua acusticamente por um movimento acústico reconhecível como voluntário e que vem a “interromper uma melodia inercial”. A prosódia se divide em dois grandes âmbitos de pesquisa: o ritmo, que estuda a distribuição das proeminências, ou seja, quantas e quão frequentes elas são, e a entoação, que se ocupa de descrever sua natureza, de compreender quais proeminências existem em uma língua e quais são utilizadas, conforme os contextos, e com qual significado. E justamente a relação entre fenômeno acústico e significado é objeto de estudo daquela parte da entoação que chamamos fonologia da entoação ou fonologia prosódica. Em muitas línguas românicas, a distinção entre frases como:

“Gianni mangia la mela”

“Gianni mangia la mela?”

“Gianni mangia la mela!”

“Gianni, mangia la mela!”

“Gianni mangia la mela??”,

que ortograficamente são realizadas só por meio da pontuação, ao nível oral é expressada pelo andamento musical da voz, o que percebemos como “melodia” da frase, e que em termos técnicos é dado pelo gráfico da frequência fundamental, ou seja, a frequência de vibração da glote, denominada por f0. O que varia, sobretudo, no exemplo citado, é a melodia musical que percebemos ao redor da sílaba tônica “me” de “mela”, que nos avisa se, por um lado, se trata de pergunta ou afirmação, ou ordem, etc., e do outro, se pressupõe surpresa, obviedade, etc.

Esta melodia musical, esta nota ou conjunto de notas que percebemos ao redor da sílaba tônica da frase, nos ajudam também a distinguir os valores pragmáticos entre frases colocadas em contextos como:

“Cosa mangia Gianni?”

e

“(Mi hai chiesto) cosa mangia Gianni?”

Há proeminências (isto é, justamente, melodias peculiares) distintas sobre a sílaba “Gian” das duas frases, que servem para distinguir duas intenções pragmáticas distintas, mas a diferença que distingue estas intenções pragmáticas varia, por sua vez,  de língua a língua, ou, no nosso caso, de varedade a variedade do italiano. A tarefa da fonologia da entoação é então comparável à da codificação escrita de uma língua oral, na qual se cimentaram muitos linguistas da antiguidade, e em tempos mais recentes também os linguistas antropólogos com as línguas indígenas: consiste em compreender quais são as unidades mínimas e como elas se compõem.

É necessário, para fazer isto, estabelecer primeiro uma sincronização entre a camada segmental e a suprassegmental, entender quais são as unidades sintáticas que podem conter nenhuma, uma, ou mais proeminências, e como descrever em termos objetivos essas últimas, em termos de um alfabeto de unidades mínimas. Este é o quadro teótico do sistema métrico autossegmental e do sistema de etiquetagem ToBI.

O sistema métrico autossegmental é um modelo teórico, além de um método, para a análise fonológica da prosódia e da sua relação com o material segmental. Suas origens remontam, supostamente, aos artigos de Bruce (1977), Goldsmith (1979) e Liberman & Prince (1977), os primeiros que lançaram a ideia de uma camada suprassegmental independente da segmental, contendo as especificações tonais e as da estrutura métrica. Bruce fala de “associação entre tons e material segmental”, Goldsmith, pela primeira vez, da existência de dois níveis, o dos tons, e outro de “unidades carregadoras de tons”, e de uma ligação entre os dois. Liberman, por fim, estuda a relação entre constituição sintática e prosódia, conjecturando as primeiras regras e restrições sobre seus possíveis aspectos. Ele introduz os conceitos de núcleo e de acento nuclear, associado com a sílaba mais forte, normalmente a última, de cada constituinte.

Teremos que esperar 1980 e a tese de doutorado de Janet Pierrehumbert para ver a construção de um verdadeiro modelo de análise dos contornos entoacionais, como uma série de movimentos tonais, denominados “acentos de frequência” e “tons de fronteira”, catalogados em um inventário finito, cuja interpolação linear rende aproximadamente o contorno entoacional. Cada tom é um nível “alvo” de altura melódica, normalmente alto (H) ou baixo (L), mas existem também o médio (!H) e o super-alto (¡H). O acento de frequência, associado a uma sílaba tônica, é um movimento composto entre alvos tonais e pode ser monotonal (H*, L*) ou bitonal (H+L*, H*+L, L+H*, L*+H, H+H*, L+¡H*, etc.), onde o asterisco indica o tom que mais se alinha com a vogal da sílaba tônica. Os tons de fronteira se dividem em acentos de sintagma (H-, L-, !H-), que marcam o comportamento após o acento de frequência, até o fim do constituinte, e tons de fronteira de frase entoacional ou boundary tones (H%, L%, !H%), que formam um alvo tonal no final da frase entoacional inteira. A proposta leva à criação do sistema de anotação ou transcrição prosódica ToBI (Silverman, 1992). Segundo o ToBI (Tone and Break Indices), podemos atribuir a cada frase um nível ortográfico, ou segmental, um nível suprassegmental, que contém os acentos de frequência e os tons de fronteira, e mais um nível de comunicação entre os dois, o dos break indices, que marca os pontos onde há divisão prosódica entre constituintes e o grau prosódico de cada separação, cujo index pode variar de “0” (nenhuma separação entre duas palavras) até “4” (fronteiras do sintagma entoacional inteiro). A fronteira de index “3”, por exemplo, marca a separação entre dois “sintagmas intermediários”, cada um dos quais tem que conter pelo menos um acento de frequência e ao final dos quais encontramos o acento de sintagma. O último sintagma intermediário no interior de um sintagma entoacional sempre contém o acento nuclear, um acento de sintagma e o tom final de fronteira entoacional.

Graças a este sistema de anotação, foram descritos os sistemas entoacionais de várias línguas, com o inventário dos acentos e dos tons de fronteira das mesmas, antes de todas, a proposta de (Beckman & Ayers 1994), para o inglês e mais recentemente, Cat_ToBI para o catalão (Prieto, 2002, Prieto et al., 2007), Sp_ToBI para o espanhol (Beckman et al., 2002, Face & Prieto, 2006/2007), o português europeu (Frota, 2000), o francês (Jun & Fougeron, 2000), Oc_ToBI para o occitano (Hualde, 2003, Prieto & Sichel-Bazin, 2007-2010).

No caso do italiano, o sistema ToBIt (Avesani, 1995), baseado na entoação florentina, define um inventário de 5 possíveis acentos nucleares e 4 tons de fronteira como primeiro passo para um sistema de transcrição das entoações italianas. Em seguida, começam a surgir diversos estudos sobre as variedades regionais individuais. O problema é encontrar um inventário prosódico único que permita comparar as diferentes variedades, um pouco como o alfabeto latino permite transcrever várias línguas.  Grice et al. (2005) acoplam em um único sistema ToBI as variedades italianas de Bari, Palermo, Nápoles e Florença. Em 2013, o trabalho de 8 pesquisadores, coordenados por Barbara Gili-Fivela, do Centro per le Ricerche Interdisciplinari sul Linguaggio (CRIL), de Lecce, dá à luz uma proposta para um sistema comparativo de descrição prosódica de 13 variedades de italiano (Milão, Turim, Florença, Lucca, Pisa, Siena, Pescara, Roma, Bari, Nápoles, Salerno, Lecce e Cosenza)

Como as letras C-A-S-A e as sílabas CA-SA, embora privadas de significado próprio, compõem-se para formar o valor semântico de “moradia”, assim o estudioso de fonologia da entoação dirá que no italiano de Pescara o valor pragmático “pergunta com resposta múltipla” (ou pergunta parcial, ou pergunta “wh-”) está associado com a sequência de tons baixo-alto-alto-baixo-alto-baixo (L-H-H-L-H-L), agrupáveis em unidades compostas como L+H* H-, L*+H L-L%. A “frase suprassegmental”, também dita contorno entoacional, é, portanto, dividida em unidades suprassegmentais compostas menores, chamadas acentos de frequência, ou, usando a expressão inglesa, pitch accents, por sua vez compostos por tons, como a palavra é dividida em sílabas e logo em letras. Trata-se, portanto, para uma determinada língua ou variedade linguística, de decifrar os alfabetos das unidades entoacionais de dois níveis, o dos tons, relativamente simples e o inventário dos pitch accent, que incluirá as combinações L+H* e L*+H.

O trabalho mais árduo, quando se trata de atribuir um alfabeto comum a mais variedades, é se assegurar de diferenciar todos os possíveis pares de acentos que produzem uma diferença fonológica, ou seja, uma diferença de significado, em pelo menos uma variedade. Para melhor entender o que acontece, imaginemos criar um sistema de escritura comum ao italiano e ao português, tal que ambas as línguas “se escrevam assim como se leem”. Observemos, por exemplo, que a distinção entre o fone correspondente ao som [R] uvular da palavra “carro” ([kaRu]) e o do [r] vibrante da palavra “caro” ([karu]) é uma distinção fonológica em português, ou “par fonológico mínimo”, no sentido que é necessária para mudar o significado das palavras (“carro” e “caro” justamente têm dois significados distintos).

Em italiano, por outro lado, as pronúncias [karo] e [kaRo] correspondem à mesma palavra (“caro”) e a segunda pronúncia pode provir de um falante que não consegue articular o “r” vibrante e emite a chamada “r moscia”, ou de um falante de uma proveniência geográfica específica, onde o fone uvular substitui o vibrante de propósito (ex., Parma). Diremos, então, que a distinção entre os dois fones em italiano é apenas fonética. Para termos um alfabeto comum às duas línguas, precisaremos, então, de dois símbolos distintos, sendo que em pelo menos uma das duas línguas (o português), a distinção é fonológica. Isto acontece no nível suprassegmental também. Na próxima seção apresentaremos os resultados do último estudo citado.

5) Um estudo recente e uma perspectiva geolinguística

O alfabeto entoacional proposto pelo grupo coordenado por Barbara Gili-Fivela no último estudo comparado sobre as variedades do italiano inclui dois pitch accent monotonais (H*, L*), 7 bitonais (H+L*, H*+L, L+H*, L*+H, ¡H+L*, L+ ¡H*, L+>H*) e 6 combinações de tons de fronteira (L-L%, L-H%, H-H%, H-L%, !H-!H%, !H-L%).

Nas 13 variedades descritas, são analisados 57 tipos pragmáticos de frase, resultado da intersecção dos parâmetros de modalidade (declarativas, exclamativas, interrogativas, imperativas, exortativas, vocativas) e por cada modalidade uma ou mais subconotações pragmáticas de pressuposição (surpresa, dúvida, obviedade, confirmação), foco (amplo, restrito, contrastivo), ênfase e outras (oferta, insistência, retórica, etc.). Descreveremos as entoações de alguns tipos frasais principais, e procuraremos evidenciar que, a diferença do que acontece em dialetologia, é muito complexo determinar uns setores geográficos de continuidade e traçar umas isoglossas da entoação, para a maioria dos tipos frasais. Debruçaremo-nos, de maneira particular, sobre o contorno nuclear, ou seja, o formado pelo último acento de frequência (acento nuclear) e pelo tom de fronteira final.

Os espectrogramas que seguem ilustrarão o andamento de alguns desses movimentos. As declarativas simples são um tipo pragmático, cujo contorno entoacional (H+L*, L-L%) é comum a todas as variedades estudadas e cuja variação de altura dos alvos tonais é puramente fonética em cada uma delas.

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Fig. 6a,b Declarativa simples: Pisa (H+L*, L-L%), variação fonética.

Os vocativos de chamada também, por exemplo, mostram um comportamento homogêneo em todo o território nacional. Por outro lado, são mais interessantes as declarativas com foco contrastivo, que se dividem em duas opções principais: um contorno L+H*, L-L% em Milão, Turim, Florença, Siena, Lucca, Nápoles, Salerno e H*+L, L-L% em Roma, Pescara, Pisa, Cosenza, Bari e Lecce.

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Fig. 7a,b Declarativa com foco: Florença (a, L+H*, L-L%) e Bari (b, H*+L, L-L%)

Se procuramos uma justificativa geográfica para esta distribuição, podemos mapear os dois contornos com cores distintas no mapa da Itália e tentar localizar as áreas de continuidade e seus limites.

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Fig.7c Distribuição geográfica das declarativas com foco: uma hipótese de isoglossa

À primeira vista, parece haver uma espécie de polarização de tipo noroeste vs sudeste. Há, porém, casos de difícil colocação (Pisa e Roma). Se passarmos ao tipo sintático interrogativo, porém, notaremos imediatamente que a variação entoacional é tão grande, que qualquer tentativa de dividir a Itália em macroáreas, separaria quase todas as variedades. Mostramos abaixo alguns gráficos da frequência fundamental deste tipo frasal em muitas variedades e, em seguida, a tabela com todas as possíveis combinações de acentos nucleares e tons de fronteira: no bloco correspondendo a cada combinação, estão especificadas as abreviações das cidades cuja variedade usa aquela combinação.

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Fig. 8a,b Contornos entoacionais das interrogativas polares: Bari (a, L+H* L-H%) e Lucca (b, H+L*, H-L%).

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Fig. 8c,d Contornos entoacionais das interrogativas polares: Turim (c, L*+H, H-L%) e Roma (d, H*+L, L-H*).

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Fig. 8e Tabela e distribuição geográfica dos contornos entoacionais das interrogativas polares.

Para simplificar a subdivisão, os autores agruparam os possíveis contornos em 4 tipologias, marcadas por cores distintas: ascendente-descendente, descendente-ascendente, ascendente-descendente-ascendente, descendente-ascendente-descendente. Apesar da simplificação, podemos observar que não existe nenhuma possibilidade de localizar macroáreas, mesmo porque muitas variedades utilizam mais de um contorno entoacional para este tipo frasal.

Aplicando a mesma estratégia às perguntas parciais, obtemos novamente uma subdivisão extremamente complicada. Enxergamos, porém, a possibilidade de cumprir uma classificação geográfica baseada exclusivamente no acento nuclear, sem considerar o tom de fronteira, que leva à curiosa localização de uma área centro-meridional homogênea.

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Fig.9a,b Perguntas parciais: Milão (a, ¡H+L* L-H%) e Pescara (b, L*+H, L-L%)

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Fig. 9c,d O acento nuclear nas perguntas parciais: descendente vs ascendente. Tabela e distribuição geográfica: uma aparência de regularidade.

E ainda, observamos uma alta variação nas exclamativas, uma mais controlável nas perguntas polares com surpresa, e assim por diante.

Este estudo tenta fornecer as bases mínimas para poder iniciar uma teoria comparativa. As razões para possíveis regularidades que resultarão destas comparações terão que ser buscadas, refinando outros métodos, como uma teoria da mudança na entoação e métodos de datação, estudos comparativos entre dialetos e variedades associadas. Perante uma literatura ainda iniciante, é desejável o nascimento, também no nível teórico, de um setor de estudos geoprosódicos comparativos, não somente descritivos, mas que investiguem as causas das afinidades e das divergências, analisando a reação da entoação ao contato linguístico, à mudança no tempo, à busca de universais que poderiam fornecer um auxílio não irrelevante aos estudos de tipologia, psico e neurolinguísticos.

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[1] Doutor em Matemática pela Universidade de Bolonha, Doutorando em Linguística pela Universidade Pompeu Fabra de Barcelona. Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

[2] Como toda sílaba possui um único núcleo vocálico (vogal simples, ditongo, tritongo) se dirá também que a vogal de tal sílaba ou, em caso de núcleo vocálico, a vogal forte de tal núcleo, é tônica ou acentuada.