setembro 23, 2015

ESTAMOS TODOS NA MARGEM DO MESMO LAGO

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Entrevista de Giuseppe Marci[2] a Andrea Camilleri

Tradução de Rafael Ferreira da Silva[3]

 

Pergunta: Tenho a difícil tarefa de ilustrar a obra de Andrea Camilleri, no Brasil e no breve tempo de uma conferência: gostaria de lhe pedir ajuda. Mesmo porque, no curso de uma similar experiência no ano passado na Universidade Federal do Ceará, percebi que ali há um grande amor pela Itália, pela língua, pela literatura, pela cultura italiana e os amigos brasileiros tinham, naquela ocasião, interesse e preocupação pela nossa política. Que notícias posso levar hoje, após um ano?

Resposta: A situação italiana é, por um lado, uma situação trágica no que diz respeito às condições recessivas que foram criadas em decorrência das manobras necessárias para o reestabelecimento econômico. A esperança é conseguir  agora instaurar um novo desenvolvimento. Temo que seja uma tarefa muito árdua. Por outro lado, hoje temos um governo técnico sustentado por uma maioria política que não corresponde mais às intenções do eleitorado italiano. Portanto, em 2013, este governo técnico cessará as suas funções e eu só posso desejar que o novo governo político possa estar em condições de poder prosseguir nas reformas iniciadas.

Pergunta: Não sei se o senhor acredita que o ano passado[4], o centésimo quinquagésimo da Unificação Nacional Italiana, tenha tido (ou não) uma considerável importância no crescimento de um sentimento de coesão civil, de uma reflexão sobre as razões basilares, sobre os percursos institucionais seguidos desde 1861 até hoje, sobre os erros cometidos, sobre as ocasiões perdidas, sobre quanta estrada ainda tem para percorrer para “fazer Italianos”. Mesmo para nós, porém certamente para quem não nasceu em nosso país, é difícil compreender as sutilezas da vida italiana e a complexidade da sociedade. Imagina entender – e explicar a quem vive do outro lado do oceano – um “escritor italiano nascido na Sicília”. Queremos partir desta definição que o senhor dá de si mesmo. Por que é tão importante e necessária?

Resposta:Um tipo de termômetro dos sentimentos que agitam os italianos em relação à Unificação da Itália foi visto na ocasião do 150° aniversário, quando somente no dia da comemoração apareceu um mínimo de sentimento unitário. Recordo que, de fato, houve um partito político que, fazendo parte do governo daquela época, não participou dessas manifestações. Sob a fachada da Unificação, existe ainda um tipo de laceração ou fratura em relação ao que seria a verdadeira composição de uma nação. Para mim, dizer que sou, antes de tudo, Italiano e, depois, um Italiano nascido na Sicília, torna-se, neste contexto, fundamental como declaração de princípio, mesmo com todas as críticas que são bem evidentes nos meus romances ditos históricos, não sobre a Unificação, mas sobre o modo como a Unificação aconteceu.

Pergunta: Faço essas perguntas ao senhor, que no início do novo século, assumiu o papel encarnado no século XX por grandes escritores/intelectuais. Penso, para citar alguns nomes, em Pier Paolo Pasolini, em Italo Calvino, em Leonardo Sciascia, poetas e “vati” (como diria Foscolo) de sua sociedade, capazes de prever, de falar do futuro. Talvez sem ouvintes. Com todas as dificuldades de seus tempos, todavia operavam em um mundo em expansão, confiante nas próprias possibilidades. Hoje, na Itália – e em tantas partes do mundo – somos, como Mimì Augello diz de si, estranhos e confusos, inquietos e assustados. Que futuro vê Andrea Camilleri?

Resposta: Encontro-me vivendo em uma época em que o futuro assumiu uma acepção quase global. Na “minha” época cada um tinha o seu próprio futuro. Nestes últimos tempos os “nossos” futuros são comuns. Tal novo ponto de vista põe quem reflete sobre o tema em uma situação muito diferente dos intelectuais que o senhor me cita. A minha resposta sobre o futuro é esta: vejo muito dramático o futuro imediato da Europa e do mundo, mas visto que – como sempre declarei – tenho mais que confiança, tenho fé no homem, penso que, no final, os destinos da humanidade, mesmo que não sejam nem magníficos, nem progressivos, sejam como forem, encontrarão a sua razão e a sua tranquilidade, seguindo regras que ainda não conhecemos.

Pergunta: Certo, parece exigir demais se pedirmos uma previsão do futuro. Porém, talvez, com o senhor possa ser feito, se pensarmos na epígrafe posta na abertura do seu primeiro romance: “il corso delle cose… è sinuoso[5]. São palavras de Merleau-Ponty que se adaptam perfeitamente ao sentido (e não sentido) das coisas do mundo e das coisas italianas. Esse romance, Il corso delle cose, impresso em 1978, depois de quase dez anos de ter sido escrito, que “não teve distribuição” e foi pouco conhecido, esse romance não faria pensar ao fenômeno Camilleri que explodiria nos anos noventa do século XX. É verdadeiramente sinuoso, o curso das coisas.

Resposta: O senhor tem provavelmente razão. Gostaria de acrescentar às suas considerações que para mim Il corso delle cose representa o único romance que teve uma reescritura total porque na primeira versão a “minha” língua era apenas acenada. Na verdade, eu não tinha ainda ousado pisar fundo; porém foi Niccolò Gallo que me incentivou a uma revisão corajosa do texto no sentido de aprofundar esta minha língua peculiar.

Pergunta: Il corso delle cose é um romance arquetípico em larga escala e contém a previsão daquilo que virá na sua produção successiva: visões do mundo, situações, gênero narrativo, língua… Começa com os nomes de Londres e Nova Iorque, e não perde esta dimensão mundial; embora uma frase-chave diga que “i siciliani hanno fama di non parlare, in realtà parlano, a mezza voce, cifrati, ma parlano, basta saperli interpretare[6]. Exatamente o nosso problema: conseguir interpretar e explicar para nós mesmos e para quem vive longe de nós.

Resposta: Creio que esta tenha sido, no fundo, a finalidade de todo o meu narrar. Procurar contar eu mesmo, as minhas origens, a minha terra, o meu modo de pensar e de ver os seus pontos em comum com o mundo e procurar torná-los sempre mais perceptíveis e claros. Porque, ao mesmo tempo em que explico as razões, cada vez mais elas se esclarecem para mim mesmo, e, além disso, ocorre um tipo de abertura para as razões dos outros.

Pergunta: Tem uma outra frase marcante para mim em Il corso delle cose: “Il paese era calato, alle tre di dopopranzo, nel sordo letargo di certe giornate africane, sicuramente, all’indomani, si sarebbe trovato un velo di sabbia rossa del deserto sui balconi[7]Cada vez que a leio, vem-me à mente um autobiógrafo sardo do século XX, Umberto Cardia: “Altra cosa era l’Africa: la sentivamo nell’aria, come un profumo arido ed intenso, come una presenza non visibile, al di là del mare, ma percepibile, tangibile, palpabile quasi. Dall’Africa giungevano i soffi caldi ed umidi del levante, uno dei dominatori, coll’oceanico maestrale, dei nostri lidi e dei nostri spazi urbani, dall’Africa la pioggia trasportava riversandola copiosamente su di noi la sabbia fulva dei deserti, dall’Africa, con i primi tepori, arrivavano, ordinate come falangi, le schiere grigio-rosee dei fenicotteri e delle altre specie lacustri che popolavano, per mesi, i nostri stagni, fino a farli brulicare d’una misteriosa, intensa, vitalità animale. Dall’Africa, come avremmo meglio appreso più tardi, ma già lo sentivamo con l’istinto, erano venuti i nostri lontani progenitori, all’Africa punica, romana, vandalica, bizantina avevamo pagato tributo per lunghi secoli, con l’Africa saracena dei bey e dei sultani avevamo lottato per altri secoli sulle nostre spiagge turrite, in Africa, a Tunisi, ad Algeri, ad Orano, nostri padri, madri, fratelli, sorelle avevano mangiato il pane amaro della schiavitù e quello, non meno salato, della emigrazione ottocentesca”.[8] Continentes e ilhas ligados por um destino comum?

Resposta: Certamente, professor, é o destino do Mediterrâneo que provavelmente é o mesmo do oceano dos seus amigos da América do Sul. Quero dizer, estamos todos na mesma margem do lago. Temos palavras comuns, gestos comuns, comidas comuns, temos o instinto de construir as mesmas formas de casas e de tocar a mesma música. Mais ao norte, às vezes, este instinto descolore no céu mais branco, mais ao sul na terra mais vermelha. Mas somos cidadãos do mesmo lago Mediterrâneo. Certo, não só foram misturadas muitas línguas, mas, sem dúvida, no Mediterrâneo criaram uma língua própria, uma língua genuína falada pelos pescadores: o Sabir.

Pergunta: Tem um conto do Sciascia que fala de uma longa viagem: “Era una notte che pareva fatta apposta, un’oscurità cagliata che a muoversi quasi se ne sentiva il peso. E faceva spavento, respiro di quella belva che era il mondo, il suono del mare: un respiro che veniva a spegnersi ai loro piedi[9]”. Navegação de doze dias com partida de Gela e Licata, com destino a uma praia de Nugioirsi[10], “a dois passos de Niuiorque[11]”, “duzentas e cinquenta mil liras: metade na partida, metade na chegada”. Uma viagem engano (que parecem as histórias atuais dos migrantes provenientes da África) com chegada a Santa Croce Camerina: “tinham desembarcado na Sicília”. Histórias de um mundo que conheceu tudo e que tudo contou, em uma sua língua na qual são misturadas muitas línguas. Ainda em Il corso delle cose, Camilleri se justifica: “Convenci-me, depois de algumas tentativas de escrever, de que as palavras que eu usava não me pertenciam inteiramente… Quando procurava uma frase ou uma palavra que mais se aproximava daquilo que tinha em mente para escrever, imediatamente a encontrava no meu dialeto, ou melhor, na fala cotidiana da minha casa”. Como fez para que milhões de italianos compreendessem essa língua falada na sua casa?

Resposta: Quando Sciascia leu as minhas primeiras coisas, sugeriu-me a não escrever como eu escrevia, dizendo mesmo que o meu destino seria o de ter poucos leitores, devido à dificuldade de compreensão. Então, a minha resposta foi que eu não tinha escolha, eu não sabia escrever de outra maneira. Estava resignado com o fato de que seria lido por pouquíssimos. E, tomando conhecimento da minha escritura, não fiz nada, a não ser aumentar as dificuldades para os meus leitores. Não sei como aconteceu a construção do que Sebastiano Vassalli, em um artigo, define como ponte: “non c’è bisogno di costruire un ponte tra il continente e la Sicilia, l’ha già costruito Camilleri: è un ponte di carta ma funziona benissimo”[12].

Pergunta: Um outro romance seu do início compreende, na edição Sellerio (1997), um glossário: “Nel 1980 Livio Garzanti volle pubblicare questo mio romanzo risolvendo la perplessità di alcuni suoi eminenti collaboratori. Mi domandò però, quasi a guardarsi le spalle, un glossario. Comprendendo le sue taciute ragioni, principiai a compilarlo di malavoglia; poi, a poco a poco ci pigliai gusto e me la scialai. Il romanzo viene ora ristampato a distanza di diciassette anni e il glossario, nel frattempo, è diventato superfluo[13]Explique-nos, por favor, a má vontade e a diversão? Explique-nos, como foi possível, que em somente dezessete anos o glossário tenha se tornado supérfluo?

Resposta: Acolhi com antipatia o pedido de Garzanti, porque me parecia um tipo de renúncia ao trabalho que eu fazia no romance. A minha escritura deveria ser aceita assim como estava, sem explicações, não eram palavras complicadas ou em desuso, mas pertenciam a um dialeto em uso. Apesar disso, já que Garzanti insistia por razões editoriais, as mesmas de Sciascia, aceitei a contragosto. Quando comecei a fazê-lo, achei, de certa forma, divertido: definir certas palavras era em si uma coisa absolutamente divertida. Depois, como aconteceu o milagre de não ser mais necessário o glossário nos livros, não sei explicar; mas frequentemente em algumas cidades italianas do norte encontrei pessoas que se esforçavam para falar comigo reproduzindo o meu vocabulário e desculpando-se pela pronúncia ruim.

Pergunta: Tanto devia ter se divertido, elaborando o glossário, que anos depois escreveu Il gioco della moscaPropus esse livro aos meus estudantes da Universidade de Cagliari, no ano de 2002, jovens imersos em um moderno universo de comunicação multimídia projetada para o futuro. Surpreendia-me ver como o obstáculo linguístico pouco a pouco diminuía, que entendessem as “micro-histórias, ou seria melhor dizer histórias celulares”, apaixonassem-se pelo que está por trás da calatina[14], os casos do padre Arnuni ou o vocábulo ‘musione’[15]: “Tengo uno storo abbascio città / dove se vuoi farmi fone / qui tutto è pace e tranquillità / nemmanco il vento ci fa musione[16]Tinham muito para refletir, os meus estudantes da Faculdade de Línguas e Literaturas estrangeiras. A propósito: o que chega de tudo isso para quem lê as obras de Andrea Camilleri traduzidas? O que posso dizer aos nossos amigos brasileiros como encorajamento para a leitura?

Resposta: O problema das traduções é serio. Houve congressos sobre as minhas traduções e o dado, de fato, é que as melhores vendas são naqueles países em que há tradutores escrupulosos e sérios. Acredito que os melhores tradutores sejam os franceses e os alemães, com os quais estou em constante contato. Não conheço a situação do português luso e a do brasileiro e, portanto, não sei o que dizer.

Pergunta: O senhor falou sobre a inclinação de Leonardo Sciascia pelos escritores sicilianos: “Pirchì io degli scrittori siciliani vorrei essere padre, complice, amico, tutto. Sugnu mafiusu rispetto agli scrittori siciliani”[17]Carlo Dionisotti, do seu modo, também era, se em um seu memorável ensaio publicado na metade do século XX podia escrever que: “I romanzi del siciliano Verga sempre più si sono imposti come la prima e fin qui sola celebrazione poetica dell’umile contemporanea Italia, fantastica e sconsigliata, come i personaggi di quei romanzi sono, dura al lavoro e quasi mordente alle scaturigini di una vita amara, che pur vuol essere vissuta fino allo stremo”[18] Aposto que Andrea Camilleri parou para refletir sobre a introdução de Os Malavoglia: “Il cammino fatale, incessante, spesso faticoso e febbrile che segue l’umanità per raggiungere la conquista del progresso, è grandioso nel suo risultato, visto nell’insieme e da lontano[19]De perto, vemos a história dos “fracos que ficam pelas ruas”, as tragédias dos vencidos, as chacinas esquecidas que pedem para ser contadas. É assim que nascem os seus romances históricos e civis?

Resposta: Também, mas nascem, sobretudo, da consciência da vontade de entender porque, mesmo tendo participado de uma tentativa comum de construir uma nação, algumas pessoas que estavam ao nosso lado combatendo, em um certo momento foram consideradas diferentes de nós. Porque, em pobres palavras, o sul da Itália, e não somente a Sicília, que tinha combatido entusiasticamente ao lado de Garibaldi, uma vez alcançado o objetivo, foi tratado como uma colônia e nada mais. Por que no meio dos vencedores havia vencidos?

Pergunta: Il corso delle cose, Un filo di fumo, La strage dimenticata, Stagione della caccia, La bolla di componenda, Il Birraio di Preston, La concessione del telefono, La mossa del cavallo, lemos como tantas outras peças do mosaico que ilustra o caso emblemático das relações entre Sicília e Itália, uma história observada e contada no momento tópico da Unificação, o antes e o depois, o que podia ser e não foi. O que era necessário se ter em mente, para tentar melhorar, como queremos, o nosso país. Em Il re di Girgenti tem tudo isso e muito mais. Tem a vida desesperada de quem trabalha o dia inteiro por um mísero salário, tem o abuso e a anulação dos humildes diante do poder político, mas tem também a esperança, o deboche, a magia, a música da lua e a poesia que faz as pipas voarem. Sabe que os meus estudantes ficavam encantados, quando aprendiam as histórias do mago Apparenzio, do poeta Grigoriu, di Fura,o caçador de serpentes e do briganti[20] Salamone? Cada uma destas obras mostra sabedoria construtiva, criatividade linguística e riqueza de tecitura literária através da qual se realiza o entrelace intertextual que Salvatore Silvano Nigro apresentou no volume da coleção Meridiani dedicado aos Romanzi storici e civili[21]Mas em nenhum momento o leitor pensa que se trate de um exercício literário e, enquanto lê, reflete, para depois levar os pensamentos das idades históricas evocadas nos romances para o presente, tão difícil para compreender e modificar. Em qual público pensa Andrea Camilleri enquanto escreve os seus romances?

Resposta: Enquanto escrevo os meus romances – históricos e civis – curiosamente penso em um público de leitores já culto, leitores para os quais, na realidade, eu esteja expondo uma tese que possa ser por eles compreendida e contestada. Curiosamente é estranho como no ato de escrever um romance do Montalbano, que sei que tem um público bastante vasto, sinto-me quase na obrigação de pôr problemáticas imediatamente acessíveis, enquanto com os romances históricos, que imagino destinados a um público de leitores “habituados com o trabalho pesado”, interessados também, permito-me uma maior intensidade de quesitos na escrita. Exceto, para derrubar toda esta tese, quando um jovem de Milão, ou de um pouco mais abaixo, propõe-me uma leitura de O Rei de Girgenti que eu ainda nem tinha me dado conta.

Pergunta: O senhor explicou como nasceram os gialli[22] que têm como protagonista o comissário Montalbano: a relação com os autores que o precederam (a começar por Simenon) e com os seus contemporâneos; o exercício de autodisciplina; o controle da escrita; a percepção de como o protagonista tem desde o início as características de um personagem de uma série, que não permanece igual, mas cresce, amadurece, dirige-se à velhice. Enquanto todo o entorno, em Vigata, na Sicília e no resto da Itália, as dinâmicas da vida se desenvolvem e Montalbano participa delas, reagindo aos acontecimentos. Entre 1994 (La forma dell’acqua) e 2012 (Una lama di luce) saíram pela editora Sellerio 19 romances de Montalbano (sem contar contos publicados em volumes pela Mondadori). O autor imaginou que seria assim enquanto escrevia o primeiro título? E, depois, o que aconteceu na mente do romancista? Elaborou um projeto que dos tempos de Il ladro di merendine (1996) chega até a Una lama di luce, ou, preferiu desenvolver certos pontos que teriam permanecido intactos e, que, ao contrário, à distância de anos, foram considerados úteis, retomados, ampliados, levados à tensão dramática dessa última obra?

Resposta: Como o senhor bem sabe, o primeiro romance nasceu como exercício de autodisciplina para mim, enquanto narrador. O segundo, para delinear e fechar a figura do protagonista. Com estes dois romances, eu pretendia concluir a série. Elvira Sellerio, com o sucesso que obtiveram estes dois livros, convenceu-me a continuar a escrever. Eu não pensava ter o fôlego tão longo para sustentar uma série que é dificílima porque corre continuamente o risco de cair no já dito, na monotonia. Na realidade, aconteceu um estranho fenômeno: a composição da diversidade da equipe da delegacia foi uma feliz invenção que me permitiu variações sobre o tema que eu não acreditava serem possíveis. Foram como corrimãos, como guias para poder fazer fluir o conto.

Pergunta: Sobre o personagem Montalbano, heroi literário, mas também astro de uma bem sucedida série televisiva, muito foi dito e escrito: o seu caráter, a técnica de investigação, as visões políticas de comunista enraivecido, a ligação com a profissão, a instituição, o país. Montalbano, como antes dele Maigret, “coloca-se do lado do morto”, quer conhecer, entender a sua vida e não somente, porque devem ser explicadas, “as razões pelas quais foi assassinado”, mas – podemos dizê-lo? – por solidariedade. Montalbano é solidário com quem perdeu, sofreu uma injustiça grave, foi privado de um direito fundamental. Seja italiano ou estrangeiro. Talvez, como lhe diz Livia em La forma dell’acqua, sente-se “un dio di quart’ordine, ma sempre dio[23] ou talvez, mais simplesmente, deste modo, e nas formas consentidas pela modernidade, continua a defender os ideais de justiça social, de democracia e de progresso que tinham-no marcado na juventude.

Resposta: Montalbano continua a defender democracia e progresso. Não creio que seja o caso de que os melhores funcionários da polícia atual também tenham vivido o 1968.

Pergunta: Certamente a Sicília, em coerência com uma história milenar, a Vigata de Montalbano, o porto, são um palco excepcional sobre o qual se encena o drama do mundo: o desespero dos migrantes, o esforço de quem quer ajudá-los, as ambições de quem quer tirar proveito deles, as manobras internacionais, os andamentos da Bolsa, os desenvolvimentos das situações políticas nos países do norte da África, na América e na Ásia. Não é um paradoxo que todo este vastíssimo cenário seja visto com os olhos de uma pequena cidade da Sicília e contado com a língua que se falava na casa de Andrea Camilleri?

Resposta:Sem dúvida é um paradoxo; digamos que seja uma convenção que eu proponho ao leitor e que o leitor aceita de bom grado. “Descreva a tua cidade e terá descrito o mondo” (Tolstoi).

Talvez esta seja, então, a explicação do porquê, além das questões linguísticas, de os romances de Camilleri serem traduzidos em tantas línguas e alcançarem leitores espalhados pelo mundo todo.

 

 

Como citar este texto:

MARCI, G. Estamos todos na margem do mesmo lago. Entrevista a Andrea Camilleri. Tradução Rafael Ferreira da Silva. In: BRUNELLO, Yuri; SILVA, Rafael; MARCI, Giuseppe (orgs.). Novas perspectivas nos estudos de Italianística. Fortaleza: Substânsia, 2015.

[1] Entrevista realizada em 2012. Disponível no site Camilleri Fans Club, em http://www.vigata.org/.

[2] Professor efetivo de Filologia Italiana da Università degli Studi di Cagliari.

[3] Professor do Depto. de Línguas Estrangeiras e do Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução (POET) da Universidade Federal do Ceará/UFC.

[4] N. do E.: Trata-se de 2011.

[5] (“o curso das coisas… é sinuoso”).(Todas as traduções são nossas).

[6] (“os sicilianos têm fama de não falar, na realidade falam, a meia-voz, com entrelinhas, mas falam, basta saber interpretá-los”).

[7] (“A cidade tinha caído, às três da tarde, na surda letargia de certos dias africanos, sem dúvida, no dia seguinte, haveria um véu de areia vermelha do deserto nas varandas”)

[8] (“Outra coisa era a África: nós a sentíamos no ar, como um perfume árido e intenso, como uma presença não visível, além-mar, mas perceptível, tangível, palpável quase. Da África chegavam os sopros quentes e úmidos do levante, um dos dominadores, com o oceânico mistral, dos nossos litorais e dos nossos espaços urbanos, da África a chuva transportava jogando-a copiosamente sobre nós a areia ruiva dos desertos. Da África, com os primeiros calores, chegavam, ordenadas como falanges, as fileiras cinzentas-rosadas dos flamingos e das outras espécies lacustres que populavam, por meses, as nossas lagoas, até fazê-las agitar-se de uma misteriosa, intensa, vitalidade animal. Da África, como aprenderíamos melhor mais tarde, mas já o sentíamos com o instinto, tinham vindo os nossos distantes ancestrais, para a África púnica, romana, vândala, bizantina tinham pago tributo por longos séculos, com a África sarracena dos beis e dos sultões tínhamos lutado por outros séculos nas nossas praias com torres, na África, em Túnis, em Argel, em Orã, nossos pais, mães, irmãos, irmãs tinham comido o pão amargo da escravidão e o, não menos salgado, da emigração do século XIX”).

[9] (“Era uma noite que parecia feita a propósito, uma escuridão coagulada que quando se movia, quase nem se sentia o peso. E dava medo, a respiração daquela fera que era o mundo, o som do mar: uma respiração que vinha a apagar-se nos pés deles”).

[10] N. do T.: Pronúncia siciliana para New Jersey.

[11] N. do T.: Pronúncia siciliana para New York.

[12] (“não tem necessidade de construir uma ponte entre o continente e a Sicília, Camilleri já construiu: é uma ponte de papel, mas funciona muito bem”).

[13] (“Em 1980, Livio Garzanti quis publicar este meu romance resolvendo a perplexidade de alguns dos seus eminentes colaboradores. Pediu-me, porém, como que para se precaver, para fazer um glossário. Compreendendo as suas razões, comecei a fazê-lo de má vontade; depois, aos poucos, tomei gosto e me diverti. O romance foi relançado após dezessete anos e o glossário, então, tornou-se supérfluo”).

[14] N. do T. : Calatina é o que se come junto com pão. “Aiuta il pane a calari meglio nello stomaco” FF126.

[15] N. do T. : Movimento. Dall’inglese motion. È parola che appartiene a quel linguaggio misto di siciliano, napoletano e americano adoperato non tanto dagli emigrati ma dai loro figli nati negli Stati Uniti.

[16] (“Tenho uma loja na parte baixa da cidade / onde se quiser me telefonar / aqui tudo é paz e tranquilidade / nem mesmo o vento nos move.”).

[17] (“Porque eu, dos escritores sicilianos, eu queria ser o pai, cúmplice, amigo, tudo. Sou mafioso em relação aos escritores sicilianos”).

[18] (“Os romances do siciliano Verga sempre se impuseram como a primeira e, até aqui, a única celebração poética da humilde Itália contemporânea, fantástica e sem critérios, como os personagens destes romances o são, forte para o trabalho e quase agressiva nas origens de uma vida amarga, que mesmo assim, quer ser vivida ao extremo”).

[19] (“O caminho fatal, incessante, frequentemente cansativo e febril que segue a humanidade para alcançar a conquista do progresso, é grandioso no seu resultado, visto no conjunto e de longe”).

[20] Nota do T.: Briganti: rebelde político.

[21] Romances históricos e civis.

[22] N. do T.: Giallo: História policial.

[23] (“um deus de quarta categoria, mas sempre deus”).